quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
(Des)Envolver
1.
Na noção de desenvolvimento juntam-se todas as ideias e práticas que querem confluir no progresso de todos e de cada um. A Cimeira do Milénio do ano 2000 ergueu oito grandes objectivos a serem atingidos até 2015, os chamados Objectivos de Desenvolvimento do Milénio que foram aprovados por todos os 189 Estados Membros das Nações Unidas. Nesta semana, também entre nós comunidade local, eles merecerão destaque especial, tanto como sensibilização comunitária como na perspectiva de acção solidária. Se mais uma gota de solicitude entrar neste oceano de paz e solidariedade que todos queremos que cresça, então valerão sempre a pena todas as iniciativas e boas vontades que se manifestam. Venham para ficar!
2. Também as circunstâncias da presente história sócio-económica que se vai escrevendo obrigará ao despertar da nova consciência capaz de estruturar as soluções mais a partir da realidade concreta que dos planos teóricos. Os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio trazem consigo essa carga de força político-educativa que se alavanca nas raízes do generoso serviço à Humanidade. Vale a pena elencar a nova carta de condução da Humanidade no séc. XXI, nos seus Objectivos: 1. Erradicar a pobreza extrema e a fome. 2. Alcançar a educação primária universal. 3. Promover a igualdade do género e capacitar as mulheres. 4. Reduzir a mortalidade infantil. 5. Melhorar a saúde materna. 6. Combater o HIV/SIDA, a malária e outras doenças. 7. Assegurar a sustentabilidade ambiental. 8. Desenvolver uma parceria global para o desenvolvimento.
3. Como lá chegar? Cada objectivo é um mundo. Sabe-se que, infelizmente, não chegaremos tão rápido e urgente quanto necessário. Mas, pelo menos, finalmente, estes Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, oito anos depois de terem sido aprovados, começam a chegar aos corredores da praça social. Todos os cidadãos Humanos são necessários. Quem dera que não tarde tantos anos esse desenvolver. Não será pela mágica mas na ética.
O FIO DO TEMPO
Escutar e agir a «Palavra»
1. Está em realização, em Roma, o Sínodo dos Bispos dedicado à «Palavra de Deus». O encontro mundial dos líderes das comunidades cristãs das Igrejas locais, também com participantes da comunidade judaica, é um acontecimento eclesial preparado e abrangente. Bem interpretar, aprofundar o sentido, sentir a «Palavra» como elo gerador de laços de verticalidade e horizontalidade, é dinamismo essencial que, pela sua riqueza, se manifesta em ecos sociais como pluralismo, tolerância, construção de paz. Nesta linha, cumpre apreciar o sentido da escuta sempre mais apurada em diálogo com os «sinais dos tempos», uma procurada rica vivência teológica.
2. É um facto culturalmente incontornável que a experiência de Abraão (há sensivelmente 3850 anos), como atitude itinerante de procura de sentido para a vida, marcou também a essência das raízes do Ocidente, com valores que se foram aprofundando e abrindo no sentido da liberdade histórica com códigos comuns em Moisés (cerca de 3250 anos a.C.) e na unidade comunitária ideal conquistada pelo Rei David (há 3000 anos). Se hoje falamos de dignidade humana em democracia, e das noções a elas pertencentes como a paz, fraternidade, justiça, amor, toda este conjunto de valores referenciais das sociedades actuais têm na viagem bíblica também a sua alavanca significativa.
3. As Mensagens e os Valores não são um dado instantâneo, como se fosse um processo «dois em um». Precisam de ser aprofundados, meditados, reflectidos. Apagar a memória histórica que nos precedeu e garantiu a preservação de um conjunto de valores e princípios será a mesma coisa que deitar a perder o tesouro dos pilares de um edifício. Acreditar que «tudo o que sobe converge» (Teilhard de Chardin) ajudar-nos-á a compreender que neste caminho não há dictomias, barreiras, mas complementaridades. Refrescar-se na «Palavra» superior (de Deus), quer significar subir em existência!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
A identidade da “regulação”
1. Sem dúvida que um novo cenário de mundo vai emergindo. Com mais intensidade que a dialéctica natural da história, em que mesmo com os arrepios das contrariedades vai crescendo na dinâmica da ascese, a certeza é que os tempos actuais são de recapitulação. Esta, por si, costuma ser redefinidora das ideias e das práticas. Já não há dúvidas que nada será como dantes. Os factores em jogo nesta crise internacional, quase um 11 de Setembro da economia em que todo o mundo está em rede, farão dela o centro de muita reflexão sobre como nos relacionamos com os factores sócio-económicos neste início do séc. XXI, na contagem ocidental.
2. O ajustamento em curso terá na palavra «regulação» o novo «eixo da roda» em torno do qual o futuro próximo se vai desenhar. A releitura do séc. XX, no diálogo (agora mais serviçal que bélico) dos dois sistemas de mundo, terá a oportunidade de procurar a síntese. Se salta à ribalta real o falhanço da completa liberdade na «lógica de mercado», esta, na justa análise adulta e honesta, não pode fazer esquecer que as lógicas estatizantes aprisionam a fluência saudável, necessária e natural das trocas de bens. É oportuno fazer lembrar a palavra dos sábios. João Paulo II quando lançava o olhar crítico sobre o comunismo destacava também as falácias do capitalismo, quando desregrado.
3. O desafio da ética económica é o novo imperativo que se ergue. Até agora também o foi na teoria; mas agora na prática. A confiança a recuperar não assentará mais na especulação mas na credibilidade, e esta conquista-se na ética da intocabilidade dos deveres comuns. Também pode brotar o perigo da «regulação» insubstituível dos Estados (que falhou porque as economias assim ditaram…) vir a significar controlo ou mesmo domínio. É uma fronteira difícil mas essencial a resituar. O pior de tudo que poderia provir era o retorno dos paradigmas estanques. A verdade está no «meio» mas não abdica da ética universal. De todos!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
A caravela da motivação
1. Pessoas visionárias e motivadas geram projectos e envolvimentos ambiciosos. O contrário também é verdade: desmotivação atrai pessimismo, crise, incerteza, desconfiança, negritude, depressão, recessão. É preocupante observar-se que a conjugação desta sequência de palavras “negras” começa a ocupar espaço demasiado como se de uma nuvem chuvosa se tratasse. Os tempos económicos actuais são também esse reflexo consequencial de que a «pedra angular» da construção social tem sido colocada bem mais na sedutora face «material» do ter que nos valores profundos que dão sentido e Ser à vida. A cultura do efémero, do plástico, do «de repente» invadiu os territórios da sabedoria tirando-lhe o lugar.
2. De 85 anos de vida e 65 de partilha pública de ideias, o reconhecido ensaísta português, Eduardo Lourenço esteve nestes dias entre nós. Na Universidade de Aveiro e em Portugal, a convite do Centro Nacional de Cultura, sendo homenageado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Lourenço, estudioso dos valores e essências da mitologia clássica europeia e portuguesa, esteve no programa «diga lá excelência» (Público, RR, Canal 2). A sua entrevista (Público, 05-10-2008) é mais um contributo irrecusável para compreendermos quem somos, dos lados de crise aos de aventura, como necessidade de «sair» de si para (idealmente) se encontrar.
3. Destaca Lourenço que os portugueses lá fora são conhecidos pela «caravela». Vem essa imagem dos tempos do «milagre» de um país tão pequeno chegar tão longe nas descobertas. Comentava-se que esse milagre nos aprisionou, pois que nos viria substituir no compromisso diário de embarcar. Se «cada pessoa que se eleva, eleva a própria Humanidade», então as dificuldades de cada época trazem mesmo consigo esse ouro no crisol que pode gerar uma nova forma. A motivação não é um milagre que venha de fora; constrói-se no compromisso e no rigor diário a que nos habituarmos.

domingo, 5 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
A incompleta República
1. Fruto dos grandes diálogos com Sócrates (470-399) e da sua ética inalienável como coerente projecto pessoal e de sociedade, Platão (428/7-347) escreve A República. Obra colossal, matriz fundadora dos valores do Ocidente, também na convergência com o espírito da incontornável tradição histórica judeo-cristã, A República quer ser a viva aspiração humana de uma sociedade inclusiva onde não existisse lugar para a rejeição. Nos tempos do renascimento, diante da Europa em convulsão guerreira e intolerante, Tomás Moro (1478-1535) inspira-se na obra platónica para escrever a sua Utopia (1516). Também nesta mesma raiz foram projectados os modelos de ciência e sociedade; entre outros, a Nova Atlântida (1627) de Francis Bacon (1561-1626), a Cidade do Sol (1623) de Tommaso Campanella (1568-1639), …
2. É importante ir à raiz da «res-pública» para compreender os desafios da actualidade. Tantas vezes a limitação humana das reacções a determinados sistemas previamente vigentes pode bloquear o verdadeiro significado do que se pretende dizer. Neste sentido, talvez seja necessário destacar que a Revolução Francesa (1789), que ergueu um desejado saudável Estado de Direito, rapidamente primou tanto pela reacção ao passado que não foi «livre», tanto quanto se apregoa. A proclamação ideal de «liberdade, igualdade e fraternidade» espelhou-se em falácia verificada nos nacionalismos consequentes que invadiram a Europa, começando logo com o império francês napoleónico. Saudável a crítica republicana ao absolutismo e aos poderes instalados; engano tremendo a nova absolutização do «republicanismo».
3. A tradução para o feminino da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) valeu a uma mulher corajosa a morte na guilhotina. Afinal a «liberdade» só era masculina e os que não tinham direitos de cidadania também não tinham lugar. É assim maravilhoso relembrar que a autêntica república se alicerça nos Direitos Humanos (1948), não só «do Homem e Cidadão». Ou seja, exaltação exacerbada do «republicanismo» (como se fosse uma nova religião com o “ismo”), não! Porque poderá excluir as diversidades e ideologicamente o reflexo das próprias liberdades… República, Participação, Democracia, Justiça, Dignidade Humana, sim! Este será o caminho da inclusão pessoal e social das culturas, dos sentidos, das religiões, das raças, das políticas… É neste sentido que o 5 de Outubro poderá ser ponto de reflexão em que, enquanto houver indignidade humana e exclusão…, a liberdade da própria república continua incompleta. Ou não será? Depende da distância crítica em liberdade e da verdade de que os sistemas humanos não são valores absolutos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
EUA: o plano de fundo(s)
1. O mundo estava em suspenso. A campanha dos candidatos à presidência americana ajudou à aprovação do plano da injecção de 700 mil milhões de dólares no chamado mercado monetário. Astronómico! É uma realidade impressionante o encadeamento ao jeito de dominó da economia do mundo nos sistemas americanos. Uma mega-dependência construída nos últimos dois séculos, também na fronteira dos valores da “liberdade” (das pessoas aos mercados), que quase ninguém quer assumir verticalmente mas que quase todos vivem no dia-a-dia. O dinheiro, como dizem os analistas, está injectado; mas a reflexão do plano de fundo é a tarefa mais urgente a ser realizada.
2. Com certa ironia, mesmo que subjectiva, os americanos falam de si mesmos como se fossem o mundo. Os “outros” ficam…! O Senado aprova o plano para tranquilizar o povo dos Estados Unidos, mesmo sabendo-se que essa tranquilidade é transnacional, mundial. Quando a água acalmar proximamente, de facto, observar-se-á a pequenez que somos para os persistentes endeusamentos das várias ideologias, até das ciências económicas. Quantas afirmações referidas, pensamentos ditos, sentenças proclamadas de pânico diante do desabar das pretensas, mas ilusórias, seguranças. Mesmo exaltando-se a «confiança» como valor, todos espelha(ra)m a desconfiança extrema.
3. As coisas são como são. Já que deste modo a América toca todo o mundo (ainda que segundo alguns no requiem diante dos novos mundos asiático e sul-americano), já que a sobrevivência do Ocidente e da Europa (realista) precisam mesmo dos EUA, então que se concretize a reflexão ética mundial urgente sobre qual o papel das economias nas sociedades actuais. O plano não pode ser um remendo. No pano de fundo continuam a pairar as mesmas incertezas das concepções injustas. Seja hora dos sábios! Não dos que produziram a crise, mas dos que a pagam.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
Dar lugar à Música!
1. Se formos a pensar bem o que representa a música como património, aspiração e mesmo projecto de Humanidade, ficamos sempre com um amargo de boca ao assinalarmos o dia 1 de Outubro como Dia Mundial da Música. Diz-se que saber música é importante mas, de facto, dá-se-lhe pouco lugar. Em Portugal, ser músico, como ser artista, é uma luta pela sobrevivência. Os génios salvam-se sempre, mas o corpo médio dos músicos onde depois brilharão as estrelas, padece da ausência de apostas firmes, sérias e programáticas. Um pouco por todo o país, heroicamente, vão sobrevivendo as bandas musicais e algumas orquestras; são muitas as colectividades que pela música conseguem juntar populações dispersas, a partir dos valores e sensibilidades musicais.
2. Volta e meia destaca-se que até para aprender matemática a formação musical é um trampolim surpreendente. De quando em quando salienta-se a «educação artística» como chave de desenvolvimento dos povos, a partir das matrizes das culturas. Mas sente-se que a música, como outras áreas artísticas, estão claramente na periferia; se houver tempo, completa-se o “mapa”…! A era actual é a da ansiosa procura das tecnologias, deitando a perder as Humanidades e as Artes. Por isso vamos ficando mais pobres… Ainda assim, simultaneamente, brota algum despertar estimulante para cenários que virão em que será a riqueza das diversidades culturais, artísticas e musicais, o maior emblema dos povos…
3. Como trazer para o “centro” dos sistemas educativos a área artística e musical? Como elevá-la a ponto de a considerar insubstituível na formação das novas gerações? Não chega o remendo... Há inteira compatibilidade entre a fronteira das tecnologias de ponta e um humanismo que sensibilize a comunidade humana para os valores artísticos… Ou não será que tocar numa orquestra não dá espírito de equipa, estética e ética?!