quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O FIO DO TEMPO
Mais próximos que nunca, mas
1. É impressionante a velocidade a que crescem as formas de comunicar. Os instrumentos e os formatos da comunicação brotam como cogumelos. Quem hoje tem dez anos nunca imaginou que um dia a televisão foi a preto e branco, ou que muitos séculos vivemos sem os telemóveis. A super abundância de instrumentos seduz a habilidade de os manusear. A competição entre as novas gerações não são tanto sobre quem sabe de “saber” mas de quem sabe “mexer”. A habilidade de manuseamento tecnológico está tornada a nova “ciência”, ficando propriamente o conteúdo mais para trás. Está patente aos olhos de todos, até pelos piores motivos de tragédias naturais ou humanitárias, que pode faltar tudo o resto menos a informação multi-proveniente, esta cada vez faltará menos (há sempre um telemóvel a gravar), será abundante, cabendo ao “leitor” organizá-la.
2. Após esta expansão imensa dos alcances informativos e dos mil e um instrumentos utilizados, é hora do reforço da aposta na qualidade e na grandeza do conteúdo que se transmite. Como é possível esta aposta na qualidade se a avalanche de equipamentos cresce de dia para dia? Será possível ensinarmos e aprendermos que mais que o equipamento vale o conteúdo, e que o equipamento só vale efectivamente se for ao serviço do conteúdo? A aproximação do mundo em relação a si próprio e às suas imensidões de diversidades é o desafio para o século XXI. Pelos instrumentos somos conduzidos ao encontro uns dos outros; mas uma clara impreparação em termos de conteúdos culturais será hoje o grande «calcanhar de Aquiles» que relança todas as incertezas quanto à capacidade de viver com os outros que são diferentes.
3. Dos média mais antigos à internet supersónica, do telefone clássico ao equipamento pessoal omnipresente cada vez mais potente e pequeno, podemos acompanhar o mundo e entrar em todo o lado. Mas com que qualidade o fazemos? Como preservar a individualidade nesta (com)vivência? Ainda não sabemos avaliar todos os impactos deste novo mundo, mas que ele nos exige bem mais atenção lá isso é bem verdade.
O FIO DO TEMPO
Escutas e valor confiança
1. A última notícia sobre as desconfianças da justiça é reveladora do estado de sítio em termos da estrutura profunda da justiça. A proposta surpreendente vem de quem vem. Não foi um cidadão comum que a sugeriu mas a coordenadora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal. Procura-se combater o crime da violação do segredo de justiça com um generalizado e preocupante lançar de suspeita sobre o próprio sistema de justiça. Sentir-se razões para esta proposta faz tremer um país. Este ciclo fechado em que está tornada a “causa da justiça”, revelando incapacidades estruturais demonstra que se torna bem difícil descortinar o caminho da seguir.
2. O verniz parece estalado de vez. O bastonário dos advogados também vem defender escutas a polícias com a finalidade de combater o mesmo mal das fugas ao segredo de justiça. Caminhamos para uma generalização da escuta para tudo e para nada que vai tornar a vida social um preocupante big brother? Esta polémica instalada mostra a ponta do iceberg em que se corre o perigo da generalização da ideia de que não vale a pela lutar por uma sociedade de confiança. O futuro que é aberto por este “escutar” aos que governam o barco da justiça coloca diante do horizonte uma negra nuvem…
3. O valor “confiança” é um valor estrutural para a convivência em sociedade. Talvez as estruturas da sociedade andem sem os essenciais alicerces. Sem o aprofundamento dos valores humanos e da dignidade da pessoa humana, e das vantagens para todos no erguer a confiança como um pilar para haver futuro melhor, sem esta alavanca a “casa” não parece que tenha ordenança possível. Às referências penais propomos mais penalização e desconfiança até á exaustão? Com realismo, haverá futuro sem confiança?
O FIO DO TEMPO
Um país humanitário
1. A situação aflitiva da Madeira, que faz de todos nós madeirenses, a par da concomitância da candidatura de Fernando Nobre à presidência da República, os temporais que têm assolado também a nossa região com os consequentes estragos, parece que fazem parte do mesmo acontecimento temporal da visibilidade humanitária de um país que, mais que nunca, agradece e faz de todos “bombeiros” no socorro das aflições. Nestas ocorrências de tragédia, o realismo organizado puxa pelo melhor de todos, e na hora da urgência não pode haver separações de qualquer cor. Da aprendizagem destes tempos humanitários é importante o seu perdurar para que a memória não apague nem a consciência da pequenez humana diante da grandeza da natureza, nem a consciência de um nacional ordenamento do território que importa na generalidade repensar.
2. A hora é solidária, os outros que sofrem podemos ser sempre nós próprios. Também é momento de pensar, reflectir, interiorizar, fazer silêncio pela memória… Não é hora de “jogatana” política, da desejosa procura da atribuição da culpa, da intriga que manifesta a mesma pequenez do ser humano diante da gigante tempestade. O que seria “se”, e “se”… Quem não se lembra da tragédia da ponte de Entre-os-rios? Então, isso sim, do que depende de nós, vamos avaliar tudo preventivamente para tudo restaurar com eficácia antes que a casa “seja assaltada”. No depois das “trancas à porta” é sempre fácil discursar, dividir para reinar, distribuir responsabilidades por outrem, jogar conforme ao jeito e à circunstância. O que porventura falta às entidades formais no zelo da cultura preventiva não é diferente do que nos falta como pessoas informais diariamente.
3. E veio a candidatura do fundador presidente da AMI (Assistência Médica Internacional) à presidência da República. Alegre político reagiu a Nobre humanitário. Dois modelos de interpretação e acção diante da realidade. O nosso povo, humano e solidário, sempre será soberano!
O FIO DO TEMPO
A demissão climática
1. É notícia fresca a demissão do negociador chefe da ONU para o clima. O fracasso da Cimeira ambiental de Copenhaga de há dois meses trouxe para o cimo da mesa a verdade dura e crua da dificuldade em implementar a mudança. Yvo De Boer – destacam os que agora o vêm partir para novos desafios – fez um trabalho formidável na política global para a questão das alterações climáticas. A decisão foi «difícil», mas inadiável; De Boer, deixando o cargo a 1 de Julho, vai-se dedicar à outra face da luta pela questão ambiental global: a luta pelo lado educativo e empresarial. Defensor de soluções mais reais que as da lógica política dos princípios teóricos, passará a trabalhar com diversas universidades e deseja envolver empresas e comunidades nos projectos ambientais.
2. A Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, na pessoa de Eric Hall, manifesta a surpresa e estranheza pela notícia da decisão e reconhece-lhe o papel de liderança, apesar de tudo, nos progressos das negociações desta área tão decisiva quanto ao futuro. Yvo De Boer parte da instância suprema das Nações Unidas para trabalhar com o sector empresarial, o que mais polui… Desafio que faz descer os princípios às práticas no acompanhamento real e realista das problemáticas do ambiente. Fica no ar a pergunta sobre se foi a “frustração” da Cimeira de Copenhaga que o conduziu à demissão da responsabilidade assumida nas Nações Unidas.
3. Três ideias força, consideramos, haverá a reter: 1. A verdade da força da liberdade de quem luta pelas causas na sua raiz, nada o deixa prender aos “lugares” importantes; 2. A urgência da aposta educativa que norteará alguém que passou pela experiência das tensões e rejeições da grande Cimeira de Copenhaga, esta resultará em sabedoria que implementará visões e práticas inovadoras; 3. A certeza de que as questões climáticas, na sua urgência global, começam a entrar nesta gama de notícias e “transferências” ainda que elas na demissão mostrem o mau “estado da arte”. Talvez este “safanão” ajude à orientação de um futuro mais sustentável na prática (?)
O FIO DO TEMPO
Aprender a viver com a crítica
1. É natural que ninguém gosta de receber críticas, mas saber conviver com elas revela-se uma atitude de prova de maturidade e de consciência de que cada dia se está a aprender. O terceiro pilar do relatório da educação para o século XXI, «aprender a viver juntos» continua a ser uma meta a atingir que por este mundo fora insiste em fazer correr muita tinta e infelizmente, também, muito sangue. A imposição das ideias de uns sobre outros, a par do deixar-se “agarrar” à ilusão do poder das coisas ou dos lugares deste mundo, tem sido e continua a ser, um dos grandes entraves à saudável e necessária convivência humana, onde todos temos sempre tanto a aprender uns com os outros.
2. Também é verdade que determinadas responsabilidades são da ordem da confiança, da delegação, implicam a necessária coesão em que se torna bem mais difícil compatibilizar a posição da “diferença” com um pensamento de unidade no essencial. Mas é mesmo aqui que estará o segredo da vivência em sociedade democrática; ninguém tem a verdade absoluta, pois que esta é projecto comum; também ninguém tem o direito de viver continuamente de forma “criticista” pela negativa, como se não existissem valores nas propostas apresentadas por outros. Especialmente quando existem incompatibilidades entre a opção A e a opção B, vem ao cimo a necessidade de uma boa fundamentação, pensada clarificação, aberta transparência, a ordem da racionalidade como justificativo integral. Quando o reinar se vai fechando e de umas paras as outras existe falta de clareza e clarificação, é natural que comece a pairar a desconfiança não como excepção mas como a regra.
3. O Portugal a que chegámos é o país que todos cada dia construímos. A história de Portugal está cheia de momentos de inspiradas aberturas ao universalismo mas também de páginas fechadas às diversidades dos outros; momentos e regimes de forte expansão pluralista e outros que liquidaram os que pensavam diferente. Libertemos a crítica com autocrítica ao novo compromisso!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O FIO DO TEMPO
Dar vida positiva e tempo ao tempo
1. Após as festividades carnavalescas, embora este ano bem mais frias mas sempre com alguns excessos típicos da quadra, o convite a regressar ao rigor dos trabalhos alia-se à necessidade de desenvolver aquilo que são caminhos e horizontes de esperança. Como em todos os tempos, também neste não faltam motivos e motivações para o travão fazer tardar as boas novidades e o ressurgir de uma vida melhor, de um progresso mais justo, de vidas mais solidárias e mais felizes. Neste campo, até pela aprendizagem que a vida sempre ensina, teremos que desconstruir aquela ideia de que o pior é onde chegámos agora e de que se chegou ao beco sem saída. Quer à luz da história dos séculos, quer na vida pública da sociedade actual, é injusta essa consideração de que chegámos ao pior dos piores…
2. Sabe-se que uma coisa é viver com sentido e outra será o sobreviver. À sobrevivência pertencerá não só a luta mesmo que aflitiva pelo dia-a-dia como também uma desmotivação paralisante; à vivência com sentido cabe tudo o que são o vislumbrar das luzes no meio da escuridão, o captar a intuição do caminho a seguir, o perscrutar a oportunidade mesmo no cenário real da crise. Nos dias de hoje, mesmo e especialmente diante de todas as desmotivações que podem gerar muralhas de inércia, valerá a pena repetir um refrão bem alto: quem cultiva cada dia o sentido da vida é bem mais forte e mais capaz de persistir na confiança do que quem não dá o mínimo tempo nem tem lugar na vida para cultivar o jardim da sua existência.
3. A pior doença de todas está centralizada no Ser profundo; por isso diz-se que o sistema nervoso (da neurologia pessoal) anda afectado, agitado com os vários “stresses”: uns justificados pelo mundo em que vivemos, outros por motivos de várias ordem e mesmo alguns que bem poderiam ser evitados. Recomecemos por aqui, por aquilo que pode ser melhor e que depende de nós; existirão ecos de luz que brilharão na vida pessoal e social. Para alguns a Quaresma – um tempo de parar e reparar, dando tempo positivo e esperançoso ao tempo da vida – também quer ter estes efeitos de saúde existencial e comunitária.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O FIO DO TEMPO
Nas malhas da liberdade
1. O tecido social da comunidade só consegue fluir criativamente no princípio basilar da liberdade. Esta liberdade, em sociedade de democracia amadurecida, revela-se como o pilar estruturante que garante o exercício da pluralidade e da respeitosa tolerância. Conseguir conviver com a diferença de opinião, de ideia, crença, política, visão estratégica, eis os sinais claros de que a liberdade é nossa companhia constante e que esta preserva o exercício público de todos e o particular de cada um. No século XX, à medida que os poderes da comunicação foram crescendo, estes foram sendo um palco preferencial do exercício da opinião, conveniente quando vem a favor, inconveniente, quando a opinião não é favorável. Estamos a navegar em terrenos muito pantanosos, onde as fronteiras da liberdade devem coexistir com as da responsabilidade colectiva.
2. Não é preciso recuar muitas décadas de tempos idos para nos apercebermos dos poderes e contrapoderes que se combatem entre si, a ordem política e a comunicação social. A primeira usa a segunda na propaganda publicitária e anunciadora, mas quer silenciá-la nas horas denunciadoras do mau governo. O castelo de acontecimentos recentes no nosso país – que jamais se poderão silenciar – está num ponto de crescimento impensável. Já após o “alegadamente”, a rede do controle nos seus tentáculos sombrios terá atingido proporções que aprisionam a desejada liberdade de opinião, o mesmo é dizer, liberdade de existir em sociedade. “Nem ao mar, nem à serra”; sendo de pressupor todos os contraditórios e todas as justificações, a verdade é que nada poderá justificar um beliscar que seja a liberdade de informação.
3. O apocalíptico caso da “escutas” já não sabe se se consegue escutar a si próprio, cheio que está de tanto ruído que parece não só não ter fim, como vai-nos conduzindo ao precipício, atacando por todos os ângulos da questão as malhas da liberdade. Não se sabe e ninguém sabe o que fazer: é o pior. Pelo andar, são naturais os medos: estes, espelham a não liberdade? Há condições para continuar(mos)?