quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
Uma pausa, uma flor!
1. De forma especial estes dias serão dias da memória que nos interpela e da paz que reconforta. Como que os nossos ente queridos (que algures no “tempo” da história de vida nos deixaram) nos proporcionam uma pausa de reflexão e elevação. Se vivêssemos do outro lado do mundo poderiam ser outras as “pausas” propostas, mas no mesmo sentido de acolher uma dignidade da vida humana que deseja continuar, mesmo para além do tempo e do espaço. O desígnio da eternidade, o anseio existencial profundo de quem quer viver para sempre! Quem não o quer?! Ficou gravado, de há bastantes anos, um belo pensamento de Michel Quoist, estudioso sistemático destes assuntos; dizia ele: «Só o amor é capaz de construir para a eternidade!» Simples e grande…
2. Faz parte da boa tradição viva realizar uma pausa no (possível) stress da vida que as sociedades foram “complicando” e, nestes dias 1 e 2 de Novembro, reencontrarmo-nos num gesto de ternura para com os que nos deram a vida e os valores que hoje “transportamos”. Muito acima do clássico discurso das circunstâncias de que “as flores oferecem-se em vida”, e ainda muito acima dos variados excessos que possam porventura existir nestas coisas… cada vez mais, no tempo que vivemos, é preciosa a partilha de um gesto, uma palavra, um sentimento, uma flor, uma vela! Agarremos o que pode unir e motivar à esperança, este um valor que nos vem do infinito e que nos quer conduzir pela via do “amor” generoso que tudo pode resgatar…
3. Esse recolhimento, rico de memória e em paz, faz-nos mesmo apreciar o essencial da vida, muito acima de todas as mil coisas. Teresa de Calcutá dizia que «um dia seremos considerados não pela quantidade de coisas que fizemos mas pelo amor que colocamos naquilo que fazemos.» Não é pela quantidade nem pelo discurso; serão a qualidade de sentido de vida como serviço a escola do futuro absoluto. Disse-nos Ele, Alfa e Ómega, que não há fórmulas… Cada flor signifique essa procura!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
Festivais de Outono
1. Por vezes pode passar a vida sem que apreciemos o melhor que a vida nos pode dar. Se conhecer e “correr mundo”, para quem tem essa possibilidade, é algo de absolutamente maravilhoso, não o será menos o apreciar da beleza das artes. Na história da arte está a própria história da Humanidade, no que ela terá de melhor. Quando entramos a fundo em determinadas áreas de conhecimento sentimo-nos absolutamente pequenos e, afinal, o quanto pequena é a vida para tamanha grandeza do insubstituível património que serão para nós as artes. Ao mesmo tempo, soa a estranho (e depois entranha-se!) uma certa indiferença de muita mentalidade pragmática actual em relação às artes… Corremos tanto que por vezes apreciamos e vivemos tão pouco!
2. Aveiro, de 24 de Outubro a 21 de Novembro, tem o privilégio de acolher mais uma edição dos FESTIVAIS DE OUTUNO www.ua.pt/fjjm. Da organização da Fundação João Jacinto de Magalhães (UA), esta persistência cultural é meritória. São anos continuados de proposta e da criação de um conceito “Festivais de Outono” que é uma oportunidade de realizar uma admirável viagem através da música. Aveiro e sua região ainda não têm muitos conceitos culturais congregadores, abrangentes e mobilizadores para uma dinâmica da cultural como saber, progresso e desenvolvimento. Sentindo a quadra da “queda da folha” como propícia oportunidade para o aconchego cultural e musical, a proposta percorre um mês de iniciativa aberta à comunidade.
3. Quase que diremos aquele “vá para fora cá dentro”, como quem aprecia o bem cultural que se procura consolidar. Em vários locais da cidade, vários autores de renome musical mundial, muitos intérpretes credenciados e diversas entidades a apoiar, os FESTIVAIS DE OUTONO são a proposta para a quadra das castanhas. A iniciativa meritória para os aveirenses tem sucesso garantido! Participar é um privilégio cultural!

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
O debate plural dos Valores
1.
É saudável quanto natural e mesmo importante que nem todos concordem com tudo. Seria monótono um unanimismo social que poderia asfixiar a liberdade do próprio pensamento e reflexão. Mas, todos hão-de considerar que sobre determinados assuntos essenciais da vida em comunidade o esforço do consenso é tarefa insubstituível. Este é um debate sempre aberto (?), no discernimento das ténues fronteiras entre o querer e o dever, o indivíduo e a comunidade. O facto lógico de que o que para algumas sociedades é um Valor para outras não o é não deve deixar à deriva o debate dos valores. Este anseia por horizontes de abertura de espírito para sua realização.
2. Considerar-se a relatividade dos valores (em termos de tempo e espaço) no seu existir sócio-antropológico não pode ser confundido com o relativismo de tudo o que pode esbarrar para a ausência das próprias referências ético-sociais. Felizmente algumas instâncias credíveis, reconhecidas e visionárias sobre o essencial para o futuro humano vão lançando na praça pública o debate dos valores fundamentais, este que persiste em não ser pacífico, talvez porque a pequenez do olho humano veja nele mais o “cisco” da fronteira qualificada de moralista que a nobre abrangência da procura situada dos valores essenciais para a Humanidade se entender no caminho. Esta atenção ao particular que divide e dificuldade em perscrutar o universal do mundo que somos é, por si, sinal do fechamento que aprisiona.
3. Temos dado ecos da pertinente Conferência Gulbenkian «Que valores para este tempo?» (2006). Destaquemos agora a UNESCO que nos seus Debates para o Século XXI, sob a direcção de Jérôme Bindé, questiona «Para onde vão os Valores?» (2006, Piaget). Se o primeiro passo é enfrentar o debate sobre o (valor dos) Valores, o segundo será perguntar se eles dependem da mera estatística social e cultural ou se têm um estatuto (ético) próprio (?) … Sim, dá pano para mangas!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
A Nossa Casa de Egas Moniz
1. Aprendermos dos valores de quem, da nossa terra, deu “novos mundos ao mundo” é uma essencial tarefa zeladora do património único que nos cumpre preservar. Se não cuidarmos das nossas próprias raízes e dos valores aí reconhecidos quem o fará?! Este gesto devido para com os que ergueram a nossa identidade regional assume-se como um desígnio que não tem fronteiras ideológicas; merece a admiração e o apreço de todos. Em boa hora, no dia de anos (59º aniversário) do 1º Nobel Português do cidadão avanquense Egas Moniz (1874-1955), é lançado envolvente projecto do 60º aniversário da atribuição, ocorrendo a reedição pela autarquia estarrejense da sua obra autobiográfica «A Nossa Casa», cuja 1ª edição data de 1950.
2. Renova-se diante de todos a oportunidade de melhor conhecer António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz, na sua matriz de valores familiares, na coragem inspirada de sua vida de trabalho (como investigador, médico, neurologista, professor, político, escritor), na riqueza da simplicidade típicas das pessoas efectivamente grandes. As suas primeiras palavras da autobiografia são: «Este livro é a história de uma família provinciana a que o autor pertenceu.» A infância de Egas Moniz foi difícil, também propiciadora de partir para estudos num seminário da Beira Interior. Um conjunto de acontecimentos familiares tê-lo-ão despertado para o grande compromisso e inadiável responsabilidade de cada dia.
3. Se habitualmente se sublinha a atribuição honorífica do Nobel da Medicina, tem pertinência cada vez mais actual o conhecer e o apreciar dos valores humanos e sociais que estão por trás de génios como Egas Moniz. Esses valores e princípios ultrapassaram a visão do cientista fechado no seu laboratório. Seja a sua intensa actividade cívica despertada quer nos bancos das escolas em educação quer na vida em sociedade. Que esses valores da participação e do sentido de Humanidade brilhem bem alto!

domingo, 26 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
A proximidade com o “Outro”
1. O Ano Europeu para o Diálogo Intercultural (2008) quer ampliar a consciência de que vivemos num tempo de novos desafios. As novas formas de comunicações actuais coloca-nos numa “mesa comum”, gerando as próprias crises grandes oportunidades de reajustamento (con)digno à nova realidade social. A pergunta do livro dos Génesis “onde está o teu irmão?”, actualizada há 2000 anos no episódio do samaritano sobre “quem é o meu próximo?”, tem hoje o mesmo lugar insubstituível da procura de um relacionamento humano saudável, que sabe dar primazia à Pessoa na sua situação. Não se trata de um refrão pré-definido, mas de uma aceitação incondicional do “encontro”, como abertura de espírito à diversidade...
2. No âmbito do programa Distância e Proximidade, decorre nos dias 27 e 28 de Outubro (com transmissão on-line, em directo: www.gulbenkian.pt) a Conferência Gulbenkian sobre a temática: “Podemos viver sem o outro? – As possibilidades e os limites da interculturalidade.” A pergunta fundamental quer nortear a reflexão e encaminhar a acção educativa. Sublinha em entrevista o Comissário da Conferência, Arjn Appadurai, que «hoje, o “outro” chega-nos sob muitas formas», para além das formas consideradas clássicas como as mobilidades humanas. A pergunta radical da Conferência, significando a própria fronteira do debate intercultural, quererá merecer uma resposta estruturadora que se escreva não meramente numa linha de sobrevivência humana mas de apreço condigno na riqueza da diversidade pessoal e cultural.
3. Em última instância, a interculturalidade é profundamente desestabilizadora. Fomos (?), aos diversos níveis de organismos sociais, educativos, políticos e religiosos, habituados a caminhar numa uniformidade de ter tudo “certinho, direitinho”. Diante das impressionantes mobilidades, quer reais como virtuais, teremos de “rever” o nosso esquema à luz do essencial humano. Somos capazes?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
A «situação espiritual»
1.
Recentemente chegou-nos às mãos a colectânea das conferências da Conferência Gulbekian que de 25 a 27 de Outubro de 2006 assinalou os 50 anos da Fundação. O pertinente e corajoso título, «que Valores para este Tempo?» trouxe a Portugal nomes grande da reflexão actual. Por trás da idealização da iniciativa, vale a pena apercebermo-nos da reflexão do grande e reconhecido pensador que foi Fernando Gil (1937-2006), entretanto falecido, não chegando a participar no congresso que fora convidado a preparar. Começava deste modo a reflexão de abertura de Fernando Gil: «Perante a angustiante “situação espiritual do nosso tempo”, diagnosticada há muitos anos por Max Scheler (1774-1928) […] parece oportuno interrogarmo-nos sobre o que se pode chamar, sem exagero, uma crise geral do sentido.»
2. Ideias estas tão importantes que, numa busca de coerência, nos farão reflectir, nos vários níveis de pertença social, sobre as necessárias interrogações. Não como quem paralisa na dúvida, mas como quem a sente viagem de descoberta. Se formos pela rua fora sobre o que se pensa da “situação espiritual” do nosso tempo arriscamo-nos a ser surpreendidos com posições que podem tocar, de um lado ou de outro, um certo extremismo de posições; como reacção crítica ou como aceitação acrítica. No fim de contas, e para que a vida tenha sentido, a busca de sentido é a tarefa mais importante da vida. A asfixia espiritual, por determinados conceitos ou preconceitos (?), continua a ser o reflexo dos fechamentos que são sementes de exclusão e intolerâncias. É urgente refocalizar o centro dos debates…
3. Uma dinâmica, como que sem contraditório, faz com que quanto menos se reflecte menos apetece pensar e reflectir. As faces técnicas e “fazedoras” da vida não darão as respostas essenciais ao nosso tempo, somente as respostas instrumentais. Não deixemos que o ser humano se instrumentalize ou ‘subjectivize’. Há tempo e lugar?

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O FIO DO TEMPO
O espírito das Leis
1. A consumada aprovação da tida moderna Lei do Divórcio, mesmo com as temerárias reservas presidenciais, sugere uma continuada reflexão sobre o papel das leis na sociedade actual. É debate antigo, tanto quanto as leis fazem parte do caminho humano. Após tantas vozes que apressadamente aplaudem a aprovação prática do divórcio e outras que a sabem questionar e renegar lendo nela um menor sinal social dado à comunidade, tem sentido lançarmos as questões que nos podem ajudar a perceber para onde caminhamos. Dá a sensação que chegámos ao tempo em que tratamos de questões humanas como se de coisas práticas se tratassem. Nestes cenários a óptica da necessária corresponsabilização tem tendência a diluir-se…
2. O filósofo francês Montesquieu (1689-1755) no ano de 1748 publicou a obra Do Espírito as Leis. Aí sugere as suas concepções sobre as formas de governo, o exercício da autoridade política e as doutrinas básicas da ciência política que viriam a exercer profunda influência no pensamento moderno, inspirando a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Pelos frutos de nacionalismos europeus vindos da Revolução Francesa claramente nos apercebemos que o “espírito” subjacente à Lei foi-se orientando mais numa busca pragmática que pedagógica. Temos, em diversos quadrantes, observado que as leis têm vindo mais legitimar práticas de maiorias (do que seja…) que estimular perspectivas apelativas e éticas de vida em sociedade.
3. Sucedem-se, por um lado, as lógicas criminalistas, de produção legislativa para tudo; por outro, em termos de educação e formação prefere-se um neutralismo que acaba por representar o avançar no vazio que esvazia. Sabe-se que nem tudo o que é legal é eticamente consistente e plausível. Sente-se estas fronteiras a serem esbatidas, será pela urgência de resolver as coisas práticas, como que secando as raízes existenciais. Preocupante? Ou já nem sequer?