segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

O FIO DO TEMPO
A corrente do sistema
1. Há dias uma imagem aa televisão, vinda da China, impressionou quem se deixa impressionar. Era um pai que, tendo-lhe sido roubada a filha mais velha, pegou no filho mais novo, de seus três anos, e amarrou-o com uma corrente a qualquer coisa fixa, não lhe fosse acontecer o mesmo destino trágico. O pai partilhava o desespero da insegurança, mas com a naturalidade de quem já está habituado à desumanidade. Tudo acontece na China, sistema que se vai afirmando com importâncias na cena internacional, mas no retrato nacional sofre os abalos de tamanhas condições de indignidade. Dizem os números, que não se podem calar, que são na ordem das cem mil crianças ano raptadas para os vários tráficos (de órgãos, de crianças, de prostituição) que persistem na era da globalização.
2. E o mundo assiste a este rodopio de notícias, esta como tantas outras, em que correntes de sistemas aprisionam pessoas e nações. Uma lei perturbadora também reina nestes acorrentados: a de que alguns países entusiasmados em conquista de figurantes de primeira linha na cena internacional, nesse processo vistoso, crescem por dentro no doloroso caminho até lá chegar. São gerações de mártires deste género, na China como noutras paragens, em que à distância “tudo” o que podemos fazer é quase-nada, a não ser ter compaixão, sofrer com quem sofre e mas ampliar o leque dos que não se conformam. Se a comunicação do mundo actual nos aproxima do que antes era obscuro, a nossa correspondência haverá de ser libertadora de cada opressão.
3. Mas, ainda, o pior de tudo é matar à raiz uma nova vida. Se os adultos não se entendem e trocam galhardetes ente si, tenham na sua capacidade de resposta adulta os argumentos com que se defender. Mas aquela(s) criança(s) chinesa(s), vítima(s) do sistema e das correntes que ao mesmo tempo aprisionam mas que garantem a perturbadora segurança… essa criança no seu olhar deixa-nos a pensar que mundo violento os grandes deixam aos mais pequenos. E depois, eles serão o que hoje formos…? Esperemos que não!

quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

O FIO DO TEMPO
O verniz e o cinto…
1. Chegámos a um momento muito difícil. Sente-se o verniz a estalar e continua certa a garantia do apertar do cinto. Quem viveu períodos como este (e mesmo quem não viveu) sente que o futuro tem um reforço de incertezas como já não se sentia há muito tempo… O caso da lei das finanças regionais e todo o xadrez de pressões, intenções primeiras, segundas e terceiras; a crise social instalada, o aumento transversal da precariedade, as pessoas do desemprego histórico, a criminalidade e insegurança que se confirma cada vez mais diária; a nossa comparação com a Grécia e a galopante não credibilidade externa; a escassez de horizontes políticos que enfermam um diálogo que todos reclamam mas que “todos” falham; a sensação de que a liberdade de opinião se sente ameaçada com sucessivos casos de “alegadas” pressões e de “problemas” a serem resolvidos…
2. Um criticismo sistemático dos males que nos atormentam que impedem de ver uma luz em céu aberto; a ideia de que se formos mesmo perguntar o que os portugueses pensam sobre «saúde, cultura, educação, justiça, história, rigor, método, empreendedorismo, política», diante destas e de outras tantas outras ideias estimulantes ou áreas sociais essenciais a sensação de que entre a indiferença ou o dizer mal é o pântano generalizado preferencial; a verdade de que apatia e descompromisso atraem a desmotivação, ambiente este que conduz a novas multidões de emigração diante de um país truncado (porque o truncámos!?); a noção de que carecemos: 1º, da autocrítica de revisão em ordem ao progresso diário e 2º, da nobre responsabilidade de cada um para se assumir todas as consequências, preferindo-se a vitimização preguiçosa ou a desculpabilização.
3. Claro que tudo o que apresentamos acima não é nada de novo, nem nada de verdade; ou outras vezes é tudo de verdade e ainda será pior; de extremos e de verniz estalado e de cinto apertado. Tudo simbólico o que escrevemos; só uma verdade: os habitantes de um país são os que o constroem; o mal que se publicita volta ao ponto de partida, sendo perca de tempo. Mas, efectivamente, diante de tantas crises, o que o país menos precisava era do que se vê; excepto aquela sugestão de baixar até ao “valor X” as grandes reformas e os irrazoáveis salários “pagos” pelos cintos apertados. E esta!?

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

O FIO DO TEMPO
O fenómeno Avatar
1. Ninguém duvida da força do mundo da imagem, dos impérios dos cinemas, do quanto eles reflectem, de um modo ou de outro, a realidade do mundo que vivemos; os seus bens ou os seus males, as suas angústias e aspirações. É uma multidão de actores imortalizados, e é um mundo que acompanha continuamente os desenvolvimentos da sétima arte, o cinema. As mais famosas películas cinematográficas são espelho de culturas e crenças, retratam momentos históricos decisivos, partilham mundialmente as mais belas paisagens; abrem-nos ao mundo do imaginário, digital, ficção, fazendo-nos ver o invisível. Mas também o cinema reflecte a violência que vai nos corações, a inveja e a corrupção que persiste, podendo quase ser uma sedutora escola de crime.
2. Quanto ao mundo do cinema, dir-se-á, nem o elogio nem o desprestígio; mas todo o cuidado, atenção e zelo em termos da inevitável impressão que a imagem grava do olho e na mente humana. Há filmes que apelam ao melhor e ao pior; cenários humanos que fascinam e outros que são tremendos. Tem vindo a crescer o uso da violência para cativar, como o mundo místico para envolver. Há realizadores históricos que têm gerado autênticos fenómenos de bilheteiras, que antecipam o mundo futuro. É obrigatório falar de Cameron, o realizador dos vários recordes. Após o filme Titanic (1997) James Cameron, após muitos anos de preparação, lança o seu último filme recordista, superando-se a si próprio. AVATAR é a nova história proposta que ilude, pelo divino, quem mergulha no mundo distante Pandora.
3. Mas o que se passa nesse imaginário mundo Pandora? Diz quem vê o filme criticamente que ele provoca sentimentos perigosos em termos existenciais e muito influenciadores para quem não está preparado. Por estranho que pareça, nos EUA a idade mínima está acima dos 10 anos; em Portugal, 6 anos foi considerada a idade ajustada. Preocupante? Diante de tal “poder”, força e fascínio do imaginário, todos os cuidados e atenções são sempre poucos…

segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

O FIO DO TEMPO
Muito mais que cidadania…
1. Na data histórica de 31 de Janeiro, no Porto, deu-se início às comemorações do Centenário da República Portuguesa. Começaram, neste contexto histórico, a ser partilhadas muitas mensagens repletas de história e muitas entrevistas a personalidades do mundo da política e da cultura. Também aquelas perguntas breves de rua (sobre acontecimentos relacionados com a instauração da república e personalidades situadas nessa época complexa) manifestam grande desconhecimento da nossa história nacional, ou então um enviesamento menos saudável no que à história diz respeito. Um vasto conjunto de “refrães” enaltecedores da ideologia republicana está no ar; aquilo que é uma oportunidade cívica não se pode asfixiar em visões limitadas e circunscritas a ideias fechadas.
2. Um dos traços comuns do lançamento das comemorações é a necessidade de espevitar a intervenção cívica para aquilo que são as realidades e os problemas da sociedade em geral, e o tempo e o modo como a actividade política enobrece o compromisso público e particular com o bem comum. Das palavras mais ditas como apelo é a palavra «cidadania». Indo ao dicionário, cidadania no espírito da república pode-nos orientar mais para a noção de “cidade” que de “humanidade”. Poderíamos dizer, com as devidas limitações de todas as comparações, que a república cidadânica, inspirada na Revolução Francesa (1789), nascendo em contraposição e reacção ao modelo anterior (mais assente no “campo” que na cidade), aponta o caminho da exaltação mais de direitos de cidadania que de direitos humanos.
3. Se a república é o actual modelo de governança, este também precisa – à semelhança de outros modelos ao longo dos tempos – de ser confrontado para se ir purificando. A República nasceu com Platão, a comunidade ideal onde a todos é garantido o essencial; as repúblicas actuais, no “dia seguinte” à sua instauração, precisam de alerta contínuo para não caírem nos males que denunciaram no regime anterior. É bom sentir que só «cidadania» é muito pouco e que o «ser humano» é que é tudo! Ou seja: relativizar a ideologia, ela depende da sua prática.

quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

O FIO DO TEMPO
Auschwitz, a dor da memória
1. Celebra-se 65 anos do momento da abertura libertadora das portas do holocausto. A 27 de Janeiro de 1945 o mundo acordou para a confirmação do mais horrendo atentado contra a natureza humana. Quem visita Auschwitz – um milhão de visitantes por ano – faz silêncio e medita na condição humana. Nestes dias, aquelas imagens a preto-e-branco que parecem remontar a séculos atrás, fazem-nos sentir que não foi assim tão longe no tempo nem no espaço. 65 anos foi “ontem”, e foi “aqui perto”, que o inqualificável crime contra a humanidade foi meticulosamente planeado; a médio prazo num nacionalismo de um povo, a curto prazo numa “solução final” aplicada silenciosamente para quem “o trabalho liberta” (esta a frase de acolhimento à entrada do campo).
2. Jamais, como dizia uma historiadora nestes dias, compreenderemos a envolvência do que se passou, o sentir profundo do mártires e mesmo dos executantes e os gritos já sem voz da indignidade praticada em pessoas como nós, de carne e osso. Auschwitz apela em nós a profunda meditação e a necessidade sempre urgente de não apagar a memória para que ninguém esqueça… Os campos de concentração fazem parte do património comum da humanidade, mas de que humanidade? Da desumanidade para que a humanidade cresça e medite nas dores desta memória construída no centro do ocidente. Recordo de uma entrevista de um antigo militante da Al-Qaeda; ele lembrou que a pior dor humana continua a estar no holocausto criado pelas ideologias ocidentais.
3. Um pensamento de tanto que tem sido dito e que nos ficou é que «o holocausto é o lado mais negro da alma europeia». Não apagar a memória, mas meditar nas suas dores como aprendizagem, é um lema bom para o desenvolvimento justo dos povos. Mas persiste um hiato na comunicação mundial actual, mensagens tão sérias e iluminadoras que não passam; ilusões e ideologias extremistas que parecem ressurgir… Porquê?!

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

O FIO DO TEMPO
A força educativa do desporto
1. Está em fase final o campeonato africano de nações, a decorrer em Angola. Após o atentado inicial em Cabinda contra a selecção do Togo, o jogo passou a ser jogado dentro do campo de futebol. A este caso contra a selecção do Togo podem-se juntar tantos outros onde o desporto é usado para outras finalidades nada desportivas. Pelas multidões que se juntam, pela representatividade dos países e, por isso, pela força sócio-política que o desporto tem, ele é usado desmedidamente como bandeira ora de orgulho nacional, ora de combate intolerante. Não passam muitas décadas em que no centro da própria Europa as modalidades dos jogos olímpicos ou os campeonatos de futebol, quando havia paz e segurança para se realizarem, esses torneios espelhavam bem as lutas “frias” entre os países em jogo.
2. A história está toda unida, uns acontecimentos inter-cruzam-se com outros; a história das grandes manifestações desportivas inscreve-se na mesma história ou de passos de desenvolvimento humano ou de recuo intolerante de uns para com os outros. Hoje, em cada mega iniciativa desportiva, ao mesmo tempo todos os países (ou mesmo em parceria) o querem, e quando organizam o batalhão de segurança bate recordes de ano para ano…não vá o atentado atingir um estádio ou uma prova. Sabe-se que na antiguidade, quando dos jogos olímpicos, a guerra “parava” para essa realização cultural; reza a história do século XX que os jogos é que pararam para deixar passar e acabar a mísera guerra. Os acontecimentos desportivos não deixam ninguém indiferente; quem dera que sejam sempre vividos no chamado “fair play”, dos bastidores ao espaço público!
3. Numa entrevista recente o alemão Wilfried Lemke, assessor da ONU para o Desporto ao Serviço do Desenvolvimento disse que «o desporto pode fazer bons vizinhos». Da recente vivência do jogo solidário para com o Haiti, ele testemunha como, lá longe, as crianças e jovens se juntam «para jogar em Israel e na Palestina». Urgentes, estes sejam os jogos onde todos saem vencedores para um futuro de segurança e paz!

terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

O FIO DO TEMPO
A sorte também se constrói
1. Poderão existir determinadas situações em que se pense que só os outros é que têm sorte e que o próprio não… Essa ideia das sortes ou dos azares parece-nos reflectir uma visão menos correcta daquilo que são as referências de compromisso que haverão de presidir os caminho diário. Diz um pensamento que «a sorte protege os audazes», e pode-se acrescentar que a sorte é amiga da atenção zelosa e persistente e inimiga do descuido e do desleixo. O ditado que diz que «quem semeia ventos colhe tempestades» também ajuda a compreender a necessidade de sempre e cada dia, nem que custe (será o que lustra!), viver e semear os grandes valores assentes na bondade, no estímulo à dignidade e ética, no apego constante à responsabilidade de ser e fazer em cada momento o melhor possível.
2. Como alguém disse, na hora da tragédia de nada vale “rezar” mundos e fundos na turbulenta viagem da estrada se não se descansou o mínimo suficiente para se ter lucidez ou se a pessoa está alcoolizada e incapaz de corresponder às solicitações de constantes e novas situações. Essa ideia de que o “mágico”, o “deus SOS”, o “bombeiro divino”, viria socorrer instantaneamente é uma das grandes falsidades que importa purificar. A desculpabilização do que deve ser a responsabilidade humana para o mágico que substituiria o zelo devido é sinal da imaturidade existencial; é a mesma coisa que passar a vida a semear tempestades e depois pensar-se que se tem direito às bonanças!
3. É por isso que nada fora de cada um de nós fará o que cada um terá de fazer; é por isso que na medida em que se procura viver a responsabilidade constante, esta como que abre as portas ao surpreendente positivo que amplia os índices de motivação… A vida é constante semente que se lança e, simultaneamente, constante colheita. A arte da coerência ética e da persistência serão dos valores estruturantes que, não a curto mas a médio e longo prazo, darão créditos positivos. A chamada “falta de sorte” como fatalismo, não é outra coisa senão a falta de se conhecer e reconhecer a si mesmo.